quinta-feira, 3 de abril de 2014

Quarenta Anos sobre o 25 de Abril – Uma reflexão inquietante

“…considerando o crescente clima de total afastamento dos Portugueses em relação às responsabilidades politicas que lhe cabem como cidadãos, em crescente desenvolvimento de uma tutela de que resulta constante apelo a deveres com paralela denegação de direitos;
considerando a necessidade de sanear as instituições, eliminando do nosso sistema de vida todas as ilegitimidades que o abuso do poder tem vindo a legalizar…”- in proclamação do Movimento das Forças Armadas, tornada publica às 11 horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974.
Começo este meu texto citando algumas das razões que, segundo o Movimento das Forças Armadas, motivaram a realização da Operação Fim do Regime.
Quarenta anos depois, vivemos num estado democrático, onde liberdades como a de expressão, a de voto, a de participação popular nas decisões do poder estão consagradas.
Mas será que aqueles considerandos não se repetem hoje?
Veja-se:
1º - Os Portugueses continuam afastados das responsabilidades políticas (e não) que lhes advêm da sua qualidade de cidadãos.
Provam-no as crescentes abstenções, os crescentes apelos ao voto em branco e nuloo total afastamento dos momentos em que podem e devem participar nos órgãos autárquicos… Dizem alguns, que tal se deve à qualidade dos políticos actuais. Poderia até ser verdade, mas  e o decréscimo do movimento associativo, a fraca adesão às assembleias gerais das associações e às assembleias de compartes também se devem à qualidade dos políticos?
Será que todos estes dados não são expressão apenas uma propensão para o conformismo?

2º - As tutelas continuam a apelar constantemente aos deveres, negando aos cidadãos os seus direitos.
Seja em nome da crise económica, seja em nome de um passa culpas constantes, os diversos responsáveis políticos continuam a insistir no apelo ao dever patriótico de pagar as dividas publicas, de suportar o gasto de dinheiro sem critério e/ou objectividade, de aguentar com as consequências de uma ineficiência dos sistemas de obras publicas, etc.
No entanto, os mesmo responsáveis são quem, na sua pratica, nos negam o direito á Justiça mais próxima, o direito à aplicação de uma politica de emprego capaz de fixar as pessoas no nosso concelho, o direito á implementação de uma politica local de transportes mais eficientes, etc…

3º - Continuam por sanear as instituições as praticas que o abuso do poder legitima, mesmo que legais.
De facto, quem não conhece casos evidentes de favorecimento familiar, de favorecimento de amigos e de pagamento de favores, que, sendo totalmente legais, só provam a colocação dos interesses pessoais à frente dos interesses colectivos?
Quem não conhece altos responsáveis que, tendo beneficiado de tais favorecimentos, no passado, não contestam hoje casos semelhantes, por mero oportunismo?

Concluindo, feita a Revolução dos Cravos, por homens como Salgueiro Maia, desassombradamente, em nome e em favor do Povo, a verdade é que os vícios do antigamente, continuaram nesta nossa democracia.
Seja porque nós, cidadãos, continuamos, impávidos e serenos a assistir de camarate ás mesmas coisas, sem nos movermos. Seja porque continuamos a acreditar que nada se pode fazer para mudar o que está mal e se nos mexermos apenas podemos ser prejudicados.

Assim e sem mais, quer-me parecer que falta, pelo menos nestas questões, cumprir Abril.

E que tal reflectir sobre isto?
Carlos Bianchi